19 setembro 2015

Aos 86 anos, mulher se forma em direito no RS e quer ajudar idosos

2 - Aos 86 anos, mulher se forma em direito no RS e quer ajudar idosos“A gente nunca sabe o suficiente, sempre há coisas para aprender na vida”

 

 

 

 

 

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O último dia 29 de agosto foi especial para a Maria Francisca Coruja. Aos 86 anos, a aposentada se formou em direito pelo Centro Universitário La Salle, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Ela participou da colação de grau com mais 21 colegas, fez o juramento da profissão e comemorou, toda feliz, com a família.

"Foi tudo muito lindo. Recebi até homenagem. Eu sempre sonhei em ter um 'Dra.' [doutora] no meu nome. O sonho era medicina, mas agora não daria tempo", brinca a formanda. "Escolhi o direito porque é uma área muito bonita e quero ajudar os idosos, mesmo que [de maneira] voluntária. Todas as pessoas deveriam conhecer [o direito]."

A recém-formada mal terminou a graduação e já começou a rotina de estudos para sua próxima missão: ser aprovada no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil): "Já comprei os livros e comecei a estudar. É muita coisa, mas eu vou passar. Vou estudar muito. Se não passar na primeira, eu passo na segunda, na terceira!"

Coruja, como gosta de ser chamada, fez graduação e pós-graduação em pedagogia no início de sua carreira e atuou 35 anos na área de educação. Mas com a morte do marido, em 1998, e de sua mãe, em 2009, a aposentada decidiu retomar os estudos "para ocupar o tempo e não ficar parada". Segundo ela, os estudos a ajudaram a superar as perdas.

Se bem que ficar parada nunca foi uma realidade para a aposentada. Coruja coleciona entre 45 e 50 certificados de cursos diversos, em áreas tão diversas como culinária, italiano, espanhol e contabilidade. "Eu não paro nunca. E nunca vou parar. Moro sozinha e é uma maneira de ocupar meu tempo. Além disso, em todo contato com outras pessoas há sempre um aprendizado", comenta.

Aluna nota 10

A formanda tem orgulho de dizer que nunca faltou um dia sequer durante os anos da graduação e que entregou todos os trabalhos exigidos pelos professores. Ela até arranjava um tempinho para ir ao bar com os colegas de faculdade e organizar churrascos com os futuros advogados.

"Já estou sentindo muita falta de todo mundo, das minhas correrias", revela Coruja, que gastava diariamente 45 minutos de trem para chegar até Canoas -- a viúva mora em Porto Alegre. "Além do trem, eu tinha que pegar um ônibus ou andar 20 minutos até a estação. Estourei minha coluna carregando todos aqueles livros", relembra com bom humor.

Coruja conta ainda que passava o dia inteiro com a "cara nos livros". Levantava às 6h, tomava café e começava a estudar. Só parava para almoçar, tomar seu "chazinho", ir à igreja. E, claro, para a soneca das 14h. Após o jantar, ela "pegava nos livros e ia" para faculdade.

Alfabetização precoce

Filha de um professor e de uma dona de casa, Coruja aos cinco anos já sabia ler e escrever. Quando entrou na escola, surpreendeu seus professores. "Naquela época era um quase um fenômeno uma criança com essa idade já saber ler e escrever. Quando eles viam que eu já sabia, eles ficavam espantados", lembra.

A bacharel em direito ressalta que sempre foi incentivada pelos pais a continuar os estudos e que passou isso para os dois filhos quando eles eram jovens. Ambos concluíram a graduação. O mais velho, de 66 anos, fez direito e a mais nova, de 59, educação física.

"Acho que o conhecimento é imprescindível na vida e ele não se esgota. Você sempre tem o que aprender. A vida deve ser uma eterna aprendizagem. A aprendizagem é como se fosse um alimento. E eu sinto a necessidade de aprender mais e mais. Nunca vou parar", afirma.

Aos 86 anos, Maria Francisca Coruja exibe com orgulho o convite de formatura (Foto: Rafaella Fraga/G1)Aos 86 anos, Maria Francisca Coruja exibe com orgulho o convite de formatura (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Viúva desde 1997, Dona Coruja, como é carinhosamente chamada por amigos e conhecidos, decidiu retomar os estudos em 2009, aos 80 anos, após a perda da mãe. Voltar à sala de aula foi uma forma de ocupar o tempo em que se sentia solitária no imenso apartamento onde mora na capital.

“No início eu fui [para a faculdade] para preencher a minha vida, que estava solitária. Mas quando entrei, já fui planejando meu futuro. No segundo semestre eu pretendo me preparar para a prova da OAB e pretendo trabalhar com a terceira idade, para ajudar as vovozinhas e vovozinhos que precisam”.

Mesmo sem querer, a história de vida de Dona Coruja serve de exemplo. Ela percebeu isso com clareza na última semana, quando foi a uma loja comprar um vestido para usar em uma das celebrações da formatura e compartilhou o compromisso com a atendente que a recebeu. “A moça me disse: ‘Tu estás se formando em direito com 86 anos? Que vergonha de mim’, me disse ela, correndo uma lágrima do olho. Ela tinha 50 anos e se achava velha para isso”, comenta, indignada.

E já é fato que a universidade não é mais um ambiente frequentado somente por gente jovem. O perfil do ensino superior no Brasil mudou. Dados do Ministério da Educação (MEC) apontam que houve um aumento de 40% no número de pessoas acima dos 60 anos dentro da universidade, entre 2010 e 2012.

Dona Coruja é a mais velha da turma de estudantes de direito (Foto: Arquivo pessoal)Dona Coruja é a mais velha da turma de estudantes de direito (Foto: Arquivo pessoal)

Graduada em ciências biológicas e com pós em pedagogia, a idosa aposentou-se em 1983, depois de fazer carreira por 35 anos no magistério. O diploma em direito vai unir-se aos demais certificados que já coleciona no currículo. “Eu me aposentei, mas não parei. Nunca. Tem uma frase que sempre usei na minha vida: ‘Todo o movimento que estaciona, morre’. Então eu não paro nunca”, afirma.

Apesar da idade avançada, Dona Coruja não abre mão do sonho de exercer a profissão de advogada de forma voluntária, na área do direito previdenciário. “Vai ser um trabalho gratuito. Eu sou muito modesta, já ganho o suficiente para viver bem”, sustenta ela. “Eu tenho onde morar, já fiz muitas viagens pelo mundo. Sei administrar meu dinheiro, ele rende. Então eu não tenho ambição por dinheiro. Eu não vou levar dinheiro para o céu”, completa.

Estudar para ela nunca foi problema. Pelo contrário, era prazer. Filha de professor, entrou na escola já sabendo ler e escrever, aos 5 anos. “Aprendi com o meu pai”, conta a irmã mais velha de uma família humilde de sete irmãos.

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Nascida em Barra do Ribeiro, a cerca de 60 km de Porto Alegre, começou a trabalhar ainda adolescente. Com a morte do pai, aos 15 anos procurou emprego para ajudar a mãe, que cuidava do lar, com as despesas da casa.

“Nossa família não tinha muitos recursos. A gente se criou no interior, uma vida modesta”, lembra. Aos 19, casou-se em Gravataí, na Região Metropolitana. Logo se mudou para a capital, onde teve os dois filhos Elaine Terezinha, 59 anos, e Sérgio Augusto, 66 anos.

É no passado que Dona Coruja busca inspiração para correr atrás dos sonhos que ainda conserva vivos. “Aos meus queridos pais, minha eterna gratidão pela luta empreendida para custear meus estudos de 1º grau, alicerce que hoje completo a obra sonhada”, escreveu ela em seu convite de formatura.

A única tristeza no meio de um período tão alegre na vida de Dona Coruja é a frágil saúde da filha, que está hospitalizada com pneumonia e recebe os cuidados da mãe. “Fiquei tão envolvida com isso que nem pude mandar todos os convites”, lamenta. Por essa razão, a festa de formatura será bem simples. “Em família e com amigos bem íntimos”, resume.

Aluna aplicada e cheia de opiniões

Dona Coruja era referência na turma de formandos (Foto: Arquivo pessoal)Durante os seis anos em que esteve na faculdade, Dona Coruja manteve a rotina de ir de ônibus ou trem até a universidade em Canoas, trajeto que levava cerca de 45 minutos. Nem mesmo algumas aulas no turno da noite a intimidavam a usar o transporte coletivo. “Eu tenho muita fé. Sou invisível para o mal”, brinca.

Em sala de aula, Dona Coruja era referência na turma, querida tanto por professores como pelos colegas. Embora não saiba explicar o que a levou a optar pelo direito, descobriu nas leis e códigos penais uma nova paixão. O bom desempenho é resultado de horas de estudo em casa. “Sou apaixonada pela educação, pela instrução. Estudo 10, 12 horas por dia”, diz.

Tanta leitura rende assunto. Sobre temas polêmicos, como a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos no caso de crimes de homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e crimes hediondos, não tem medo de se posicionar. “Isso não adianta nada. Nada. Eles saem pior de lá [da cadeia]. Ah, se eu pudesse pegar esse mundo e virar do lado avesso”, argumenta.

Apesar de ser reconhecida e elogiada por seus feitos, Dona Coruja é modesta e evita o rótulo de exemplo. “A gente nunca sabe o suficiente, sempre há coisas para aprender na vida”, conclui.

Fontes: G1 e Uol


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