21 setembro 2014

De vendedor de bananas a Juiz de Direito: Uma história de sucesso

2 - DE VENDEDOR DE BANANAS A JUIZ DE DIREITO - UMA HISTÓRIA DE SUCESSO 2O juiz Edilson Chagas, que foi flanelinha e vendedor de bananas na infância e hoje é o titular da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do DF. Depois de perder o pai, ele ainda vendeu bananas e foi ajudante de obra. Chagas realizou um sonho ao comprar leite condensado aos 13 anos: 'dia mais feliz'.

 

 

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O clima de satisfação com o trabalho e a admiração que os servidores nutrem pelo magistrado, a quem estão subordinados, parecem ser tão robustos quanto o nome do setor onde estão lotados - Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do Distrito Federal.

A equipe, formada por doze servidores e dois estagiários, reconhece o dinamismo que leva o juiz titular da Vara, Edilson Enedino das Chagas, a despachar com rapidez os feitos e sabe que, por trás de todo o compromisso com a atividade jurisdicional e de uma singular competência que o credencia como professor de Direito Empresarial, existe uma história de vida que o faz respeitado como ser humano, além de profissional singular.

O Juiz Edilson, 44 anos, que um dia vendeu bananas, tornou-se a motivação para os servidores que, com frequência, recebem elogios de jurisdicionados pelo diligente trabalho que executam.

Juiz Edilson Enedino 2

Quem vê o juiz brasiliense Edilson Enedino das Chagas se desdobrando entre os processos da Vara de Falências, o posto de professor de direito empresarial e a preparação para o doutorado mal pode imaginar que esse é um desafio pequeno perto dos quais já precisou enfrentar.


Seu primeiro trabalho foi aos 8 anos, como vendedor de bananas, para ajudar a mãe. Desde então, ele já foi vendedor de picolés, flanelinha, jornaleiro, ajudante de obras e faxineiro. Mas orgulho mesmo o magistrado sente quando fala sobre o que espera para o futuro: "um sonho? Poder ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal. Mas é uma chance em 5 milhões", diz, entre risos.

Quando meus filhos olham torto para a comida fico realmente triste. Eu, na idade deles, não queria nada de extravagante. Só queria arroz, feijão e bife. Isso deveria ser um direito fundamental, toda criança deveria ter isso. Então, sim, me dói ver alguém olhar para um prato de comida e dizer que não quer ou que não há nada de bom." Edilson Chagas, juiz do DF

Experiência de vida para ocupar o cargo de ministro ele acredita ter o suficiente. Chagas nasceu em 1970 e começou a enfrentar dificuldades assim que deixou a maternidade. Filho de um tratorista e uma dona de casa, ele morava em uma invasão no Paranoá e dividia o pouco espaço do barraco com os quatro irmãos. Quando tinha 1 ano, o pai conseguiu uma casa de um único cômodo por meio de um programa habitacional.

"Essa talvez tenha sido a maior âncora que meu pai nos deixou. Casa dá dignidade. Poder entrar em um lugar e fechar a porta, dizer que é o seu porto, onde você pode ancorar o seu navio, dá um alívio enorme", afirma Chagas.

Pouco depois o pai morreu e a família começou a lidar com problemas ainda maiores. Os filhos e a viúva precisavam se virar com um salário mínimo por mês. Sem dinheiro nem para comprar comida, eles dependiam de doações da Legião Brasileira de Assistência, programa assistencial do governo federal, que distribuía sopas para grávidas. O alimento era usado nos cafés da manhã, almoços e jantas durante a maior parte do mês.

Cansado de ver o sofrimento da mãe para garantir a sobrevivência da família e tendo aprendido que não podia pegar nada que fosse dos outros, mesmo que fosse emprestado, aos 8 anos ele decidiu trabalhar. O garoto foi a uma distribuidora de frutas e pediu uma caixa de bananas para vender durante o dia. O acordo era que, depois de quatro horas, ele devolveria o que restasse e dividiria os lucros com o dono.

Edilson na infância, usando roxo, em foto tirada com os irmãos (Foto: Edilson Enedino Chagas/Arquivo Pessoal)O juiz de Brasília Edilson Chagas na infância, usando roxo, em foto tirada com três dos irmãos
(Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)

"Eu ganhava o equivalente a R$ 5 por dia, mas eu me sentia muito feliz. Foi com esse trocado que a gente pôde, por exemplo, passar a comprar pão do dia. Aquilo foi realmente um sonho para a gente. Imagina não precisar esperar para só comprar pão amanhecido! Só que, é claro, o que eu colocava na mão da minha mãe não durava, e de fato era bem pouco. Ainda assim, me sentia satisfeito com o pouquinho que a gente conseguia a mais", lembra.

Meses depois, observando que o rendimento era pequeno, o menino passou a vender picolés. Ele percorria cerca de oito quilômetros todos os dias para vender 40 unidades e lucrava até R$ 6. As dificuldades eram com crianças mais velhas que se recusavam a pagar e chegavam a agredi-lo. "Mas, quando dava certo, era bom. Dava a manteiga. E, às vezes, rendia até um fígado de galinha ou o dorso do frango. A sensação era de cumprir um dever."

Aos 13 anos, já trabalhando como flanelinha de um supermercado perto de onde morava, no Gama, Chagas conseguiu realizar seu maior sonho: tomar uma lata de leite condensado. Ele juntou as moedas ganhadas durante as sete horas de trabalho para poder comprar a guloseima que até então nunca havia entrado na casa da família.

"Quando todo mundo foi dormir, furei um buraquinho e comecei a beber. Meu Deus, aquele foi o melhor dia da minha adolescência! Eu acordei seis vezes à noite para tomar um pouquinho de cada vez, queria que nunca acabasse", conta o juiz. "Isso me instigava mais, me dava vontade de crescer. A minha fome parece que abria meu apetite para estudar, aprender, querer ir além."

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A rotina de trabalho era dividida com os estudos, uma prioridade para a mãe de Chagas. Na época, ele estudava em um colégio "cheio de gangues" e os alunos usavam drogas até dentro da sala de aula. O comportamento era repudiado pelo jovem, que não havia tomado partido por nenhum dos grupos. Um dia, o rapaz foi abordado pelo líder de um deles.

"Ele pediu para que eu continuasse prestando atenção para poder ensiná-los depois as matérias e proibiu que me oferecessem drogas. Por incrível que pareça, isso me protegeu. E foi bom, porque até me deu um método de ensino", diverte-se. "Eu já troquei lanche por orientação para quem tinha dúvida. Tudo era realmente uma luta, até comer."

Sonhando em ser médico, Chagas chegou a trabalhar como ajudante de obras antes de terminar o ensino médio ao mesmo tempo em que concluía um curso profissionalizante. No mesmo período, a mãe conseguiu uma reavaliação da pensão deixada pelo marido e passou a ganhar o suficiente para não depender mais do esforço do filho. O jovem fez então curso de fuzileiro naval e prestou concurso para a Polícia Militar. Ele diz que já estava acostumado a ter o próprio dinheiro e não queria passar a depender da família.

Poucos anos depois, em 1991, o rapaz foi aprovado como faxineiro de uma empresa terceirizada que prestava serviços para o Tribunal Superior do Trabalho. A proximidade com a área de direito levou Chagas a se interessar pelo curso. Ele prestou vestibular em uma faculdade particular e conseguiu ser aprovado - a concorrência era de 27 candidatos por vaga.

Foi entre os anos de 1991 e 1994 que uma brilhante carreira jurídica começou a ser delineada. Estudando em uma faculdade particular – na época não havia cotas para as universidades públicas federais – Edilson formou-se em Direito e, apenas um ano após a formatura, tornou-se fiscal do trabalho do DF.

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Em 1998, surgiu a oportunidade para tentar uma vaga no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. O incentivo veio de um amigo, mas o ex-flanelinha ficou reticente. "Eu pensava: 'Moço, quem é que passa assim nisso?' Só me vinham esses pensamentos. 'Por que você? Olha que tipo de emprego você já teve, você vendia bananas.' Achava a ideia absurda."

Até então, poucos poderiam prever que o adolescente laborioso seria, um dia, o primeiro colocado no concurso de 1998 para Juiz de Direito – aliás, o primeiro morador do Gama a alcançar o feito.

Chagas decidiu fazer o concurso mesmo assim e, sem abandonar o trabalho, passou três meses se dedicando à preparação para a prova. Havia quase 900 inscritos para 38 vagas, e, pouco antes da aplicação dos testes, uma lei aprovou a criação de mais 110 vagas.

"Pensei: 'Agora eu passo'. Então ouvi uma voz que me perguntava se eu dependia da quantidade de vagas. Pensei em Deus e pedi que ele me perdoasse. Mas aí eu disse: 'OK, não dependo da quantidade de vagas, dependo de ti. Mas se ainda assim puder me dar uma vaguinha, eu agradeço'. Fui sincero", lembra, bem-humorado.

O juiz Edilson Enedino Chagas, na sala de audiências da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do Distrito Federal (Foto: Raquel Morais/G1)O juiz Edilson Enedino Chagas, na sala de audiências da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do Distrito Federal (Foto: Raquel Morais/G1)

O cansaço da prova extensa deu lugar à ansiedade. O magistrado lembra que decidiu ligar para a responsável pela prova na segunda-feira seguinte para perguntar se já havia resultado. Após ouvir uma resposta positiva por telefone, questionou: "E eu, passei?".

"Eu nunca vou me esquecer disso: 'Doutor Edilson, o senhor passou, sim. E pode preparar o discurso de posse, porque o primeiro colocado sempre discursa. E essa pessoa é você.' Eu não cabia em mim", afirma Chagas.

Vida após virar juiz

Depois de assumir uma vaga no Tribunal de Justiça, o ex-flanelinha também passou a dar aulas. Ele concluiu o mestrado em direito e atualmente se prepara para fazer doutorado em psicanálise. Bastante religioso, ele aproveita os finais de semana para fazer obras assistenciais da igreja que frequenta no Gama.

“Meu prazer é fazer compras. Essa marca ficou em mim. Às vezes saio da faculdade às 22h e vou correndo ao supermercado. E se tem algo que me dói é ver uma pessoa na fila do caixa tendo que escolher o que levar, por não ter dinheiro para tudo. Um dia eu acabei pedindo à mulher para passar todas as coisas, não deixar nada, paguei a diferença. Dói ver a pessoa tendo que se decidir entre o básico, não havia nada de supérfluo." Edilson Chagas, juiz do DF

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"Ter crescido na escassez me ensinou a valorizar tudo o que chega para mim. Tudo o que me feriu eu tento evitar que aconteça a outras pessoas", disse. "Nunca peguei o que é dos outros, nem emprestado. O meu pode ser o pior ou o mais feio, mas é o meu. É como a nossa casa zero-quarto [de um único cômodo, conseguida pelo pai]."

Mesmo se considerando sem traumas ou mágoas por causa do passado difícil, o magistrado confessa que mantém alguns pensamentos da infância. Um deles é a mania de economizar e o sentimento de culpa quando compra algo caro, como quando precisou ser "convencido" pela mulher de que merecia ter um "carro do ano". O outro é gostar de ir a supermercados.

"Meu hobby é dar aula, mas meu prazer é fazer compras. Essa marca ficou em mim. Às vezes saio da faculdade às 22h e vou correndo ao supermercado. E se tem algo que me dói é ver uma pessoa na fila do caixa tendo que escolher o que levar, por não ter dinheiro para tudo. Um dia eu acabei pedindo à mulher para passar todas as coisas, não deixar nada, paguei a diferença. Dói ver a pessoa tendo que se decidir entre o básico, não havia nada de supérfluo", conta Chagas.

O magistrado se orgulha de os três filhos adolescentes não precisarem passar pelas mesmas dificuldades que ele viveu. Na época, a mãe é quem fazia as roupas para as crianças, já que não havia dinheiro para comprá-las. Já o trio pode escolher o que quer, inclusive em relação à alimentação.

"Mas quando meus filhos olham torto para a comida fico realmente triste. Eu, na idade deles, não queria nada de extravagante. Só queria arroz, feijão e bife. Isso deveria ser um direito fundamental, toda criança deveria ter isso", diz o juiz. "Então, sim, me dói ver alguém olhar para um prato de comida e dizer que não quer ou que não há nada de bom."

O juiz Edilson Enedino Chagas, junto com a mulher e os filhos em viagem aos EUA (Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)O juiz Edilson Enedino Chagas, junto com a mulher e os filhos em viagem aos EUA (Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)

Com uma rotina puxada - o juiz faz questão de despachar em até 24 horas os cerca de 40 processos que recebe por dia, Chagas sonha em poder levar a vivência difícil para uma cadeira no STF. Ele acredita que as chances são remotas e já se planeja para trabalhar na área de direito empresarial quando se aposentar.

"Depois que o Joaquim Barbosa anunciou que sairia, todo mundo passou a brincar comigo. Eu gostaria muito, acho que seria uma vitória de verdade. Acho que posso contribuir com essa visão de quem vem do povo", declarou. "Eu não consigo ir para casa sabendo que tem gente dependendo de mim, precisando de mim. Eu já esperei muito dos outros e nem sempre tinha quem me estendesse a mão. Por isso, gosto de dar suporte quando isso está ao meu alcance."

O Juiz Edilson valoriza sua própria história e faz questão de lembrar, sempre, de onde veio. Em suas próprias palavras: “Entendo que importa muito mais quem está conosco do que aquilo que nos acontece. Deus, a família, os amigos, um Estado presente e atuante, uma igreja fraterna. Com essa fórmula, muita fé e honestidade, a vitória sempre chega”.

Fonte: TJDFT e G1


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2 comentários :

Emocionada com essa matéria! Esse juiz é a prova de que o impossível não existe! Existe o difícil, mas não o impossível!

Parabéns ao Juiz.
Oxalá futuro Ministro do STF. Só espero que quando estiver lá, não se deslumbre como o Sr. Joaquim Barbosa (de origem humilde também), mas que gastou rios de dinheiro na reforma do ap. funcional (ostentação com dinheiro próprio já é de mal gosto, imagina com nosso público!).
Muito obrigado ao nosso bom Deus por nos presentear com uma pessoa que valoriza o trabalho, o esforço, a honestidade, a humildade.
Como disse nossa colega Ana Silva (no outro comentário): é difícil, mas não é impossível. Pena que poucos pobres têm essa consciência e disposição para se libertarem da humilhação em que vivem.
Ao mesmo tempo, quem pode sempre deveria ajudar. Não custa nada amenizar esse sacrifício do outro.
Ao mesmo tempo, enquanto lia essa história, imaginava como essas políticas de transferência de renda são importantes!!
Quem venham outras boas histórias de superação.

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